Estudo revela que 1,2 milhão de jovens brasileiros equilibram estudos com trabalho de cuidado, destacando desafios e oportunidades de capacitação
A realidade de conciliar estudos, trabalho e responsabilidades de cuidado é um desafio enfrentado por muitos jovens no Brasil. Um estudo recente realizado pelo Icict/Fiocruz, em parceria com a Agenda Jovem Fiocruz e o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), traz à tona dados alarmantes sobre essa realidade.
O levantamento, intitulado “Juventudes e a política de cuidados”, revela que 1,2 milhão de estudantes se dividem entre a educação e o cuidado com outras pessoas, o que impacta diretamente suas oportunidades de formação e emprego.
Uma jornada dupla que afeta a educação
Os números são reveladores. Entre as jovens de 18 a 24 anos, 21,5% (equivalente a 802 mil) conseguem conciliar estudos com trabalho de cuidado não remunerado. Em um cenário ainda mais desafiador, 9,1% (340 mil) dessas estudantes também exercem atividades remuneradas.
Para as jovens de 25 a 29 anos, a situação se agrava: 29,3% (367 mil) somam as responsabilidades de cuidado à sua formação, com 18% (225 mil) enfrentando a tripla jornada — estudos, trabalho remunerado e cuidado. Esses dados sublinham a importância de políticas públicas que apoiem essa população.
Impacto nas oportunidades de formação
Essas informações são cruciais para aqueles que acompanham editais de cursos e especializações, como os oferecidos por instituições federais e programas de educação à distância.
A pesquisa destaca que muitos candidatos não conseguem concluir suas formações devido à falta de tempo, uma barreira que muitas vezes não é considerada nas estatísticas de evasão escolar.
A situação é especialmente crítica para as mulheres jovens de classes populares, que buscam cada vez mais por bolsas e cursos gratuitos, além de enfrentar dificuldades em processos seletivos que exigem dedicação integral.
Uma nota técnica da SNCF/MDS de 2023, citada no estudo, aponta que a responsabilidade pelo cuidado é a principal razão pela qual 56% das jovens mulheres estão fora do mercado de trabalho e 31% estão fora da escola. Essa realidade demanda uma resposta efetiva das instituições de ensino e do governo.
Cuidotecas: uma solução em andamento
Uma das iniciativas do governo para enfrentar esses desafios é a criação das Cuidotecas, um serviço público gratuito previsto no Plano Nacional de Cuidados Brasil que Cuida. Essas unidades oferecem acolhimento para crianças de 3 a 12 anos, permitindo que pais e responsáveis se dediquem aos estudos ou ao trabalho, mesmo durante períodos que excedem a jornada escolar. A implementação das Cuidotecas ocorre em parceria com universidades, institutos de educação profissional e prefeituras, o que promete suporte para alunos que têm responsabilidades familiares.
Marco legal e suas implicações
A base legal para essas iniciativas é a Lei nº 15.069/2024, que institui a Política Nacional de Cuidado (PNaC) no Brasil. Essa legislação reconhece o cuidado como trabalho, necessidade e direito, estabelecendo diretrizes que buscam equilibrar as responsabilidades familiares com a educação e o trabalho remunerado. O público prioritário da PNaC inclui todos aqueles que cuidam de dependentes, abrangendo milhões de jovens estudantes.
Reconhecendo as dificuldades para transformar oportunidades
Para os professores da rede pública que buscam se capacitar por meio de especializações e cursos de extensão, o estudo da Fiocruz reforça uma mensagem essencial: a dificuldade em concluir uma formação não é uma questão individual, mas sim estrutural. É fundamental que editais e políticas educacionais considerem a realidade das sobreposições de jornada enfrentadas por esses profissionais. À medida que mais instituições de ensino aderem ao Plano Brasil que Cuida, espera-se que o suporte através das Cuidotecas se torne mais acessível, beneficiando estudantes e trabalhadores que enfrentam a tripla jornada.
Com a crescente demanda por educação de qualidade e qualificação profissional, é essencial que essas questões sejam discutidas e que soluções efetivas sejam implementadas. O futuro da educação e do trabalho no Brasil depende do reconhecimento e da superação desses desafios.
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