A paralisação se espalha por campi de São Paulo, Rio e rede federal, pressiona aulas, permanência estudantil e orçamento, e coloca USP, Uerj e universidades federais no centro de uma crise que mistura salários, bônus, bolsas e estrutura.
A greve já atravessa algumas das universidades mais importantes do país e empurra a educação superior pública para um novo choque nacional. Na USP, a explosão veio depois da criação de uma gratificação de R$ 4,5 mil para docentes; na Uerj, a pauta mistura perdas salariais, triênios e orçamento; nas federais, a paralisação dos técnicos segue desde fevereiro e já alcançava 50 instituições representadas por 34 entidades no informe nacional da Fasubra de 10 de abril.
Na USP, o estopim foi um bônus milionário para professores
O pavio acendeu em 31 de março, quando o Conselho Universitário aprovou a Gace, gratificação criada para professores em regime de dedicação integral que apresentem projetos em áreas consideradas estratégicas.
O valor fixado foi de R$ 4.500 por mês, por até 24 meses, com início previsto para 2027. A própria universidade admite que, no cenário máximo, a medida pode consumir até R$ 238,44 milhões por ano e alcançar cerca de 82% do corpo docente em RDIDP.
A reação dos funcionários veio rápida. O Sintusp aprovou a greve a partir de 14 de abril, organizou piquetes nas unidades e lançou um “arrastão” de mobilização pelo campus. Em poucos dias, o sindicato afirmou que a paralisação já havia atingido mais de 30 unidades na capital e no interior.
No dia 15, a assembleia estudantil também aprovou greve unificada por tempo indeterminado, elevando a temperatura política dentro da universidade.
O conflito bate direto em um terreno sensível para a USP: a permanência estudantil. A própria Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento informa que o orçamento de apoio estudantil previsto para 2026 é de cerca de R$ 461 milhões e atende hoje 15.869 estudantes. No PAPFE, o auxílio integral está em R$ 885 e o parcial em R$ 335, valores que viraram parte do centro da pressão estudantil nas últimas semanas.
Na Uerj, a greve já chegou ao Palácio Guanabara
No Rio, a Uerj entrou em um ciclo de paralisação que já atravessa professores, técnicos e estudantes. Os docentes deflagraram greve em 25 de março, cobrando parcelas atrasadas da recomposição salarial prevista em lei, retorno dos triênios e reforço orçamentário. Os técnicos entraram na paralisação em 9 de abril, com pauta própria que inclui PCCS, auxílios saúde e educação e recuperação de perdas.
A crise subiu de patamar quando a reitoria, os sindicatos e representantes dos comandos de greve foram ao Palácio Guanabara negociar com o governador em exercício, Ricardo Couto. Na reunião de 17 de abril, o governo sinalizou um protocolo de intenções, vinculou parte da discussão ao julgamento da ADI dos royalties no STF e marcou um novo encontro para 30 de abril, às 17h, com foco na viabilidade de elevar o auxílio-alimentação para R$ 1.500 no contracheque.
Nas federais, a paralisação começou em fevereiro e virou mapa nacional
A greve das federais não nasceu agora. A Fasubra oficializou o movimento em 23 de fevereiro, com uma pauta centrada no cumprimento integral do termo de acordo firmado ao fim da greve de 2024. No informe nacional de 10 de abril, a federação registrou 50 instituições em greve, incluindo nomes de peso como UFRJ, UFMG, UFRGS, UFBA, UFPI, UFRN, UFPR e Unifesp.
O pano de fundo financeiro ajuda a empurrar a crise. O orçamento de 2026 das 69 universidades federais saiu com corte de R$ 488 milhões, o equivalente a 7,05% do previsto originalmente, de acordo com cálculo citado pela Andifes. Em março, o MEC anunciou um repasse extra de R$ 400 milhões para as federais. O dinheiro alivia a tesoura, mas não fecha a conta inteira nem encerra a cobrança das categorias que acusam o governo de não cumprir integralmente o acordo anterior.
Quando a greve cresce, o impacto sai da folha e cai no dia a dia do aluno
É aí que o impasse deixa de ser assunto restrito a gabinete e sindicato. Na UFRJ, o próprio sistema de alimentação universitária classifica os restaurantes como instrumento importante de combate à evasão. Na USP, a permanência estudantil já mobiliza quase 16 mil alunos. Quando greves se prolongam, a pressão cai sobre aula, atendimento, restaurante, bolsa, calendário e rotina de quem depende da universidade pública para continuar estudando.
O que está em jogo agora vai muito além de uma paralisação localizada. A disputa encostou nas duas maiores estaduais do país, espalhou tensão pela rede federal e abriu uma vitrine incômoda para o tamanho do desgaste entre servidores, estudantes e administrações. Enquanto negociações seguem em curso, a universidade pública brasileira entra em abril sob pressão máxima, com dinheiro curto, campi em ebulição e um calendário que já começou a balançar.
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